A voz da comunidade na prevenção da violência

IMG_8945_2

O medo cala, mas a paz ergue sua voz no morro. Os diálogos se estabelecem na comunidade, que tenta criar estratégias e buscar respostas aos diversos conflitos vivenciados no seu dia a dia, de forma que a violência deixe de ser o único recurso disponível ou conhecido.

Compreendendo o conflito como algo inerente ao ser humano, e necessário para a construção de respostas em um processo democrático, mas tendo também a clareza de que, quando não gerenciados de maneira positiva, podem gerar violência e infração das leis, o Instituto Terre des hommes Brasil desenvolve por meio de seu trabalho comunitário ações de sensibilização da comunidade para o enfrentamento da violência e processos formativos na temática da Justiça Restaurativa. Esses processos se utilizam de práticas restaurativas, como meios para a resolução de conflitos e prevenção da violência através do diálogo.

Para o Instituto Tdh Brasil, realizar trabalho comunitário pautando temas como a Justiça Restaurativa, as medidas socioeducativas e o ato infracional para a prevenção da violência é acima de tudo fortalecer as instituições, famílias e a própria comunidade, tornando-as protagonistas no processo de transformações. É notório que essas mudanças precisam acontecer para que a convivência comunitária seja pautada no respeito e tolerância, elementos fundamentais à construção da paz.

Articulado em rede, o Instituto Terre des hommes Brasil realiza um trabalho de empoderamento da comunidade para que ela reconheça a sua capacidade de estabelecer hábitos e estilos de vida que contribuam para a promoção de uma cultura de paz e a não-violência.

Nádia de Paula
Articuladora comunitária  do Instituto Tdh Brasil

 

Anúncios

Convenção sobre os Direitos da Criança: 28 anos

ConvencaoCrianca

O ano de 2017 vê a Convenção completar seu vigésimo oitavo aniversário, evento que, por sua envergadura, não poderia passar despercebido. Com base nesse texto, muitas e importantes conquistas históricas foram alcançadas e consolidadas ao redor do mundo, incluindo aí a promulgação, no Brasil, do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Concebida no esteio dos enunciados que já constavam na Declaração Universal dos Direitos da Criança, de 1959, a Convenção se pretende um instrumento de proteção e cuidado à infância e à adolescência, considerados na condição de ser humano em desenvolvimento, tendo, ao contrário da Declaração, caráter obrigatório para os países signatários. Vale salientar, todos os países membro da Organização das Nações Unidas (ONU) subscreveram a Convenção, à exceção dos Estados Unidos e da Somália.

A Convenção traz uma série de princípios e garantias cujo objetivo é incentivar, nos países membros, a implementação de políticas e demais medidas que garantam o desenvolvimento pleno e integral da criança e do adolescente, nas suas dimensões física, afetiva, familiar e social. Também inaugura a “Doutrina da Proteção Integral”, que é, mais do que um marco jurídico-legal, um verdadeiro convite a repensarmos a maneira como compreendemos, tratamos e nos relacionamos com a infância e com a adolescência.

Infelizmente, apesar de já ter se passado um quarto de século desde aquele novembro de 1989, ainda nos confrontamos, em todo o mundo, com situações de desrespeito aos direitos fundamentais de milhares de crianças e adolescentes. Fica claro, portanto, o desafio ainda permanente de trazer os enunciados da Convenção para a realidade, o que só é possível através de um esforço conjunto, articulado e insistente de todas as pessoas e instituições, governamentais ou não, comprometidas com esta causa.

O Instituto Terre des hommes Brasil se soma a estes esforços, desenvolvendo, ao redor do mundo, inúmeros projetos para fortalecer a garantia de direitos de crianças e adolescentes, tendo a Convenção como marco orientador, e é neste sentido que atua no Brasil já há mais de 30 anos. Entre suas atividades recentes, se destacam: o projeto Vozes, que periodicamente edita publicações que ecoam as falas e opiniões de crianças e adolescentes sobre suas realidades, garantido seu direito de participação e expressão; e os projetos de prevenção à violência e cultura de paz, que implementam, nas escolas, ambientes restaurativos em que práticas restaurativas e a mediação escolar são utilizadas para resolução positiva de conflitos.

Anselmo de Lima
Presidente do Instituto Terre des hommes Brasil

Olhar sobre gênero

IMG_9871_2

Questões referentes à temática de gênero são complexas e multiculturais, por envolver, desde a primeira infância, noções comportamentais de como meninos e meninas devem ser, pensar e agir perante a sociedade. A construção dessa identidade perpassa por processos educacionais estabelecidos ao longo da vida e refletem em questões como a desigualdade no mercado de trabalho, a legitimidade no exercício da sexualidade, situações vexatórias vivenciadas em contextos comunitários, relações de poder e hierárquicas dentre outras que permeiam as causas e motivações das situações de conflitos, violência ou infrações.

Tais desafios tornam-se ainda mais obscuros na Justiça Juvenil diante da própria invisibilidade da situação das adolescentes que encontram-se em conflito com a lei. As intervenções estruturadas sob uma cultura onde ainda prevalecem privilégios masculinos e a opressão contra a mulher são frequentemente condutoras nos processos de responsabilização, desconsiderando necessidades legítimas do sexo feminino, sejam elas biológicas, afetivas e/ou sociais.

Em vista disso, o Instituto Terre des hommes Brasil, ao considerar o enfoque de gênero sob a ótica da Justiça Juvenil Restaurativa, propõe uma intervenção junto a crianças, adolescentes, famílias, instituições e comunidades que de fato legitimem a igualdade entre as pessoas, o respeito à diversidade e à prevenção à violência e ao ato infracional, com foco no fortalecimento de vínculos, escuta às necessidades dos envolvidos no processo de responsabilização, restauração de vínculos e reparação do dano para a construção de uma cultura de paz.

Renata Araújo
Pedagoga do Instituto Terre des hommes Brasil

Ser protagonista juvenil no Brasil

ProtagonismoJuvenil

Talvez não seja tão simples ser protagonista juvenil no Brasil, como é ser um jovem em um país em que as mínimas condições necessárias e fundamentais para o seu desenvolvimento muitas das vezes são negadas, como a saúde, a moradia, o saneamento básico e outras mais, como a segurança. Sabendo de todos estes obstáculos de uma forma inconsciente, entendemos que a jornada é longa após o nascimento de futuros protagonistas juvenis. Nesse processo de crescimento com tantas diferenças sociais, quem será ou virá a ser um protagonista de sua própria história? Os degraus são longos até um entendimento de um ator juvenil.

Ao longo de anos dizem que os jovens são o futuro desse País. Não vejo tanto empenho para que eles venham a ser, principalmente, os que moram em “periferias” onde o preconceito e a discriminação existem pelo simples fato do local onde moram já ter um estigma negativo, e aí as possibilidades se tornam menores. Talvez os nossos jovens protagonistas não queiram tudo na mão, mais sim oportunidades de serem tratados como merecem, como “jovens de verdade”. Assim, poderão brincar, chorar, se apaixonar, fazer seus questionamentos e suas descobertas com segurança. Assim, poderão sonhar com um mundo melhor para todos.

Mais toda essa trajetória tem um preço chamado “determinação e coragem”, pois o mundo fora de casa é real. Em meio a tantas complexidades de sobrevivência diária, teremos poucos atores juvenis nesse percurso que mais parece uma arena cheio de gladiadores em meio a leões famintos. Aí me pergunto: como é ser um jovem protagonista nesse país chamado Brasil? 

Fernando da Luz
Educador social

A paz existe

IMG_4970_2

Dizem que para viver é necessário muitas coisas, mas às vezes não percebemos o que é viver. A paciência é uma forma de viver a vida, e o que a mediação e a forma que tratamos um ao outro tem a ver com isso? O mundo precisa de esperança e de acreditar que tudo pode dar certo, como o amor, como o respeito, como a força de vontade. Muitas vezes uma conversa muda seu dia, sua semana ou até a sua vida. Ouvir além da sua voz é sentir a vida te dando voz.

Não deixe de conversar e entender o outro, pois entendendo, você pode se entender. A vida é cheia de momentos e você pode escolher o melhor jeito de viver esses momentos. Pule, cante, dance, se divirta, pense na vida, nas conquistas. Não desista. E quando tudo estiver confuso, procure alguém para conversar. A mediação está aí para te ajudar, com a Val e a Joyce para te apoiar, como todos do projeto.

Estamos para te incentivar a ser melhor a cada dia, e se entrar em conflitos, pare e pense. Será que vale a pena brigar, se eu posso conversar, dialogar, entender e mudar? A mediação é igual a paciência, está aí. É só você ver.

Gabriela Lobo
Aluna da Escola de Ensino Fundamental e Médio Senador Osíres Pontes

A proteção integral de crianças e adolescentes e o papel do Disque Direitos Humanos (Disque 100) para coibir a violação de direitos

bresil_queimados-esr-odile_meylan-cirque_baixada_aout_2009_113

Nessa semana, tomamos conhecimento das violações sofridas por crianças e adolescentes em situação de cárcere privado e maus-tratos no bairro Dionísio Torres, em Fortaleza (CE), sendo a denúncia oriunda do Disque 100, o que nos faz perceber a importância deste serviço para a ruptura de ciclos de violência. Isto ocorreu porque algumas das instituições responsáveis tomaram as providências cabíveis, quais sejam, o Conselho Tutelar, a Defensoria Pública Geral do Estado do Ceará e a Delegacia de Combate à Exploração da Criança e do Adolescente (DCECA). Casos como este apontam para a essencialidade da divulgação deste serviço pela imprensa, pela sociedade e pelas redes sociais, uma vez que as violências domésticas contra o público infantil e mulheres são muitas vezes invisibilizadas ou naturalizadas.

Sendo que, a exposição de denúncias acompanhadas pelas instituições de proteção jurídica dos infantes deve sempre considerar o direito de imagem e a dignidade das crianças e adolescentes vítimas de violência, destacando-se nas medidas preventivas e de responsabilização devidas, devendo os órgãos responsáveis e as matérias veiculadas pela mídia resguardar a integridade física, moral, psicológica e social, tudo em consonância com as disposições constitucionais e com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) quanto à peculiar situação de desenvolvimento de crianças e adolescentes, inclusive contra toda forma de violência e negligência e tratamento cruel e vexatório.

Conforme dados do Disque Direitos Humanos, no estado do Ceará, no ano de 2016, foram registrados mais de 5.113 mil situações de negligência, violência física, sexual e psicológica. Realidade que ainda é subnotificada, tendo em vista a situação de inequidade social da nossa cidade, e do não acesso à informação por parte das pessoas. No Ceará, temos cerca de 1,2 milhões de crianças em situação de pobreza. Tal fato reverbera em muitas violações, como exploração do trabalho infantil, violência sexual, evasão escolar etc.

Para alterar esta realidade, precisamos tanto fortalecer instituições como o Conselho Tutelar, Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), Centro de Referência de Assistência Social (Cras), Defensoria Pública, Ministério Público, delegacias bem como promover o desenvolvimento socioeconômico de nossas famílias, fortalecendo uma cultura de respeito aos direitos de crianças e adolescentes. Ademais, é dever de todas as pessoas a denúncia em casos de suspeita ou ocorrência de qualquer violência contra este público. Denuncie. Disque 100!

Jéssica Araújo
Advogada e pesquisadora do NUDIJUS-UFC, COVIO-UECE e LINCOS-Estácio)

Isabel Sousa
Advogada, membro do Nudijus-UFC e do Fórum DCA-CE)

Vanessa Santiago
Advogada, mestranda em Direito pela UFC, integrante do Nudijus-UFC (nudijus@gmail.com)

Prevenção à violência infanto-juvenil: um modelo de ação para a implementação de práticas restaurativas em contextos escolares

IMG_9471_2

Muito se tem refletido e buscado sobre estratégias referentes ao fenômeno da violência. Por sua natureza complexa, em aspectos psicossociais, políticos e econômicos, há necessidade de ações integradas, elegendo estratégias qualitativas que intervenham tanto no imediato, quanto na prevenção, com fins de efetivamente dar apoio àqueles que foram vítimas da violência oportunizando-lhes espaços de atenção e promoção da segurança, bem como de responsabilização de quem cometeu o ato violento ademais de sua integração comunitária em uma convivência pacífica.

Infelizmente não se trata de uma novidade ser exposto aqui alguns dados que ilustram a dimensão dessa violência. A exemplo disso, tem-se o Mapa da Violência 2014 e o Índice de Homicídio na Adolescência 2012, que apresentam dados alarmantes, quais sejam: a taxa de assassinatos de adolescentes e jovens, entre 15 e 24 anos, no Brasil cresceu 2,7% em 10 anos, no Ceará o índice triplicou; há ainda, a estimativa que mais de 42 mil adolescentes, de 12 a 18 anos, poderão ser vítimas de homicídio nos municípios brasileiros de mais de 100 mil habitantes entre 2013 e 2019 de acordo com as respectivas pesquisas. Tais dados impulsionam reflexões e ações que efetivamente promovam mudanças significativas no cenário social.

Nesse sentido, o Instituto Terre des hommes Brasil (Tdh) desenvolve um projeto em Justiça Juvenil Restaurativa desde 2011 incorporando ações no eixo da Prevenção da Violência Juvenil e no eixo do Sistema de Justiça Juvenil em cinco estados do Norte e Nordeste do Brasil: Ceará, Maranhão, Pará, Piauí e Rio Grande do Norte. Em um protocolo nacional pela difusão da Justiça Restaurativa, assinado em 2014 junto aos principais órgãos do sistema de justiça juvenil tais como: o Conselho Nacional de Justiça, a Associação de Magistrados do Brasil, a Secretaria Nacional de Direitos Humanos, entre outros, o compromisso do Tdh está na promoção e garantia dos direitos humanos de crianças e adolescentes e, estando estes envolvidos em situações de violência e ato infracional, que seja promovido um processo de responsabilização, reparação do dano e restauração de vínculos.

Neste artigo, nosso foco se estenderá sobre as ações de prevenção à violência juvenil e aos atos infracionais em âmbito comunitário, especialmente no que se refere à implementação de um “Modelo de Ação de Prevenção à Violência Escolar e Implantação de Práticas Restaurativas”. Tal modelo de ação resulta do trabalho desenvolvido junto a escolas do Ceará, em parceria estabelecida com o Ministério Público do Ceará e as Secretarias estaduais e municipais de Educação.

Esta intervenção tem como protagonistas a família, comunidade, sociedade e poder público, uma vez que estes sujeitos têm o dever, conforme o art. 4° do Estatuto da Criança e do Adolescente, de assegurar às crianças e aos adolescentes direitos fundamentais. O trabalho envolve a participação efetiva desses atores, buscando construir de forma coletiva a adoção de estratégias para fazer-se um espaço seguro com base nos princípios da justiça restaurativa e de técnicas de gestão positiva de conflitos, tais como os Círculos de Construção de Paz e mediação de conflitos. Ademais, a orientação e apoio às instituições educativas para a implementação de procedimentos de proteção de crianças e adolescentes de qualquer tipo de violência no espaço escolar.

Especificamente, em Fortaleza, a parceria estabelecida entre Tdh, Ministério Público e Secretarias, tanto Municipal como Estadual, de Educação vem desenvolvendo, desde 2012, o projeto de Mediação Escolar, e, com base nessa experiência, sistematizou o processo de implementação do Projeto, com o passo a passo definido. Esse modelo de ação se constituiu em um conjunto de conceitos norteadores e propostas de ações com fins de responder à problemática do fenômeno da violência e do ato infracional em âmbito escolar. Havendo uma necessidade de fortalecer as competências dessas instituições educativas, a proposta é que através dessas orientações conceituais e técnicas, as escolas possam ter ferramentas que lhes apoiem a construir uma prática educativa sob um enfoque restaurativo de disciplina e de gestão positiva de conflitos.

Respondendo ao questionamento levantado por gestores, professores, familiares e alunos sobre o que é possível e necessário para prevenir e intervir diante da violência e do ato infracional no contexto escolar, a experiência tem constatado que é possível promover espaços educativos com princípios, valores e métodos de uma educação para a paz, construindo com seus protagonistas (alunos, professores, gestores, pais, funcionários e comunidades) o que é necessário para estabelecer em seu cotidiano boas práticas de convivência e de construção de habilidades para a gestão positiva de conflitos, de modo a promover a prevenção da violência e do ato infracional, e como intervir sobre os mesmos.

O modelo de ação objetiva compartilhar a experiência do Tdh com foco na construção de espaços de proteção no ambiente escolar, ao adotar procedimentos de prevenção da violência e fortalecimento de uma cultura educacional pela paz. Também é norteador para se estruturar ações quando crianças e adolescentes são autores da violência. Por isso, o modelo de ação para as escolas tem objetivos específicos, tais como:

  1. Ajudar crianças e adolescentes a se protegerem de suas próprias violências e, para isso, propor ações, aqui previstas, que promovam o fortalecimento das competências infanto-juvenis, apoiando-lhes a aprenderem a gerenciar positivamente seus conflitos, resolvendo-os de modo não violento, ou fazendo uso de práticas que efetivamente lhes ajudem a responsabilizarem-se diante daqueles que sofreram com seu ato e, desse modo, restaurarem vínculos fragilizados por causa do fato ocorrido;
  2. Dar subsídios teóricos e metodológicos, de acordo com as normativas nacionais, para que as escolas compreendam e se empoderem para, sempre que possível, tratarem os conflitos e casos de violência ou atos infracionais leves sem fazer uso de medidas punitivas ou do encaminhamento para o Sistema de Justiça Juvenil (Delegacia, Ministério Público, Judiciário);
  3. Apoiar as escolas a promoverem a integração de adolescentes que se encontram em cumprimento de medida socioeducativa que, muitas vezes, estão evadidos do espaço escolar. Além disso, tal modelo orienta a execução de quatro passos, sendo eles: 1. Sensibilização e parceria; 2. Conhecendo o contexto escolar; 3. Formação, aplicação das práticas restaurativas e acompanhamento das escolas; 4. Monitoramento e Avaliação.
    Para tanto, atingir tais objetivos requer inclinar-se a seguir às seguintes ações centrais em termos de orientação: 1. Análise situacional da escola; 2. Plano de ação para proteção de crianças e adolescentes e prevenção à violência; 3. Formação da comunidade escolar; 4. Política institucional para proteção de crianças e adolescentes; 5. Medidas disciplinares restaurativas; 6. Articulação com a rede de apoio; e por último, e não menos importante, 7. Monitoramento dos resultados alcançados com base em indicadores qualitativos e quantitativos previamente definidos na análise situacional realizada.

Um dos pilares do modelo de ação é a implementação de metodologias baseadas nos princípios da Justiça Restaurativa, sendo um modelo de justiça que focaliza nas necessidades das vítimas e as consequentes obrigações do ofensor, priorizando procedimentos de colaboração e cooperação para a resolução de problemas (as chamadas práticas restaurativas), como apontam as professoras e pesquisadoras americanas Judy Mullet e Lorraine Amstutz no livro “Disciplina Restaurativa para Escolas” (2012).

Duas práticas metodológicas são amplamente trabalhadas junto às escolas, especialmente os círculos restaurativos e a mediação de conflitos. A mediação de conflitos é um procedimento voluntário, pacífico e extrajudicial, que visa proporcionar um espaço de diálogo e análise dos conflitos e das motivações dos participantes, de modo a alcançar uma clara compreensão das divergências e dos reais interesses a serem satisfeitos. O foco dado não é o de construção de acordos, mas oportunizar que as pessoas tenham a experiência do diálogo, saindo da posição de adversários para que, de forma colaborativa, compreendendo os sentimentos e necessidades de cada um, tomem, de forma autônoma, as decisões que melhor atendam suas necessidades.

Os círculos restaurativos aplicados seguiram a concepção e o método amplamente difundidos pela especialista norte-americana Kay Pranis, instrutora dos chamados Círculos de Construção de Paz que foram usados pela primeira vez pelo juiz norte-americano Barry Stuart, e por ele assim denominado. São um encontro entre vítima, ofensor e a comunidade, implicando tanto os que indiretamente foram afetados pelo fato ocorrido como os que podem ajudar as partes diretamente envolvidas a restabelecer o equilíbrio, a reparação do dano e a convivência comunitária e social de maneira saudável, podendo incluir serviços de assistência social, conselhos tutelares, lideranças comunitárias, amigos, professores, entre outros. E assim como na mediação, o encontro só ocorre depois de uma preparação prévia das partes, por meio dos pré-círculos.

Situações conflituosas ocorridas nas escolas acompanhadas pelo Projeto e passíveis de aplicabilidade dessas formas positivas de suas resoluções por meio do diálogo já foram exemplos de sucesso, como o caso explicitado logo mais.

O relato de uma professora capacitada pelo Tdh Brasil como Facilitadora de Processos Restaurativos e Mediação e que está aplicando as metodologias em uma das escolas onde o modelo de ação está sendo replicado traz a dimensão dos benefícios dessas práticas para uma prática pedagógica que prima pela convivência saudável e segura no ambiente escolar. “Quando vou realizar um círculo, os alunos trazem vários problemas, e na visão deles todos tem a razão. Mas quando converso com eles, e utilizo as técnicas das práticas restaurativas, é perceptível a mudança na hora do círculo e após o final. Percebe-se um alívio no olhar, na fala, os sentimentos começam a modificar” (Valdenice, professora da Escola Estadual Osires Pontes em Fortaleza/CE). Do ponto de vista dos alunos, essa experiência de resolução de conflitos lhes permite a segurança e apoio necessário para a reparação dos danos, a restauração de vínculos e responsabilização “Se tivessem aplicado um corretivo na gente ou alguma punição, e não houvesse a mediação, a gente talvez tivesse continuado com o bullying ou alguma coisa pior”, relata a aluna Vanessa Pereira, participante da Mediação na escola Osires Pontes. “Após a mediação além de solucionar o conflito ficamos mais próximas umas das outras, nos reconciliamos e voltamos a ter nossa amizade que era muito boa”, complementa a aluna.

Para a implementação desse modelo de ação, uma capacitação inicial de 30 horas é realizada com a comunidade escolar, dando-lhes subsídios básicos aos conceitos e técnicas das práticas restaurativas. Entretanto, as escolas seguem um processo formativo de fortalecimento de suas competências para a gestão positiva de conflitos.

Conforme nos afirma o professor Marcelo Rangel Pinheiro, da Escola Estadual Matias Beck, ao realizar a capacitação: “…Foi uma experiência extremamente rica e trouxe uma proposta restaurativa para os conflitos. Percebemos que era uma necessidade de todos, de abordar as situações conflituosas que acontecem na escola de uma maneira diferente, não apenas punitiva, pois percebemos que não gerava nenhum resultado. Aqui conhecemos uma outra proposta, a restaurativa que é a proposta que estávamos precisando”, afirmou o professor. A mudança de paradigma que esta proposta convida requer cuidar da necessidade de refletir sobre as práticas existentes e consolidadas nas escolas e o que se precisa rever.

[1] Terre des hommes Brasil é uma organização não governamental filiada à Terre des hommes Lausanne, na Suíça, que há 56 anos age de forma participativa e inovadora em prol dos direitos de crianças e adolescentes em situações de vulnerabilidade e risco social.

[2] A justiça restaurativa teve origem na década de 1970, em países como Estados Unidos, Canadá e Nova Zelândia, diante da necessidade de se dar uma resposta mais efetiva para atos criminosos. A possibilidade de uma resposta mais assertiva está na concepção apresentada pela justiça restaurativa sobre conflito, violência ou crime, e de como fazer justiça. Uma mudança paradigmática se apresenta quando qualquer situação de ofensa, inclusive o crime, é compreendida como “[…] uma violação de pessoas e relacionamentos […]. O crime […] cria a obrigação de corrigir os erros. A justiça envolve a vítima, o ofensor e a comunidade na busca de soluções que promovam reparação, reconciliação e segurança”, como afirma Howard Zehr em “Trocando as lentes” (2008).

[3] O Tdh tem sistematizada e aplicada, desde 2002, uma Política de Proteção Institucional que é difundida em todos os seus Projetos e Instituições parceiras. Tal Política prima em preservar o bem estar das crianças e adolescentes que participam das ações desenvolvidas por Tdh e/ou parceiros e prevenir atos de violência sob todas as suas formas. Visa proporcionar às crianças e aos adolescentes um ambiente seguro e acolhedor e, aos profissionais, as orientações necessárias para agir em defesa dos direitos infanto-juvenis.

Para saber mais:

MELO, Doriam Luis Borges de; CANO, Ignácio (Orgs.). Índice de Homicídios na Adolescência: IHA 2012. Rio de Janeiro: Observatório de Favelas, 2014. Disponível em <http://www.unicef.org/brazil/pt/br_IHA2012.pdf&gt;.

SECRETARIA NACIONAL DE JUVENTUDO. Mapa da violência: Os jovens do Brasil. Disponível em <www.juventude.gov.br/juventudeviva>.

MULLET; Judy H.; AMSTUTZ, Lorraine Stutzman. Disciplina Restaurativa para Escolas. São Paulo: Palas Athena, 2012, 118p.

PRANIS, Kay. Processos Circulares. São Paulo: Palas Athena, 2010.

TERRE DES HOMMES. Construindo relações de cuidado: um guia para implementar práticas restaurativas nas escolas. Fortaleza: Terre des hommes Lausanne no Brasil, 2013.

______. Modelo de ação para prevenção da violência e práticas restaurativas em contexto escolar. / Terre des Hommes. Fortaleza: Terre des Hommes, 2015.

ZEHR, Howard. Trocando as Lentes. Um novo foco sobre o crime e a Justiça Juvenil Restaurativa. Tradução Tônia Van Acker. São Paulo: Palas Athenas, 2008.

______. Justiça Restaurativa. Tradução Tônia Van Acker. São Paulo: Palas Athenas, 2012.

Joyce Silvério
Assistente social da organização não governamental Terre des hommes Brasil. Atua como facilitadora de práticas restaurativas e mediadora de conflitos.

Lastênia Soares
Psicóloga, mestre em Educação, especialista em Mediação de Conflitos. Trabalha como instrutora e facilitadora de práticas restaurativas. É diretora do Programa de Justiça Juvenil Restaurativa do Instituto Terre des hommes Brasil e ponto focal em proteção de Tdh para América Latina.